domingo, 29 de dezembro de 2013

Propósitos

O fim do ano serve sempre de lema para balanços, propostas de mudança, conceitos para reflexão, mas raramente passa além de. E quando chegamos ao novo ano damos por nós novamente ofegantes, de agendas preenchidas e desorganizadas, exaustos no atropelo das sucessivas exigências em que acordamos invariavelmente atrasados e amanhecemos em falta para os compromissos tomados. E tanta coisa fica perdida, atropelada, submersa e que perdemos sem muitas vezes o percepcionarmos, e é esta perda a que realmente nos faz tanta falta. 
Kundera tem toda razão: “Quando as coisas acontecem rápido demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo.”  e diz mais ainda,  "O grau de lentidão é proporcional à intensidade de memória e o grau de velocidade é proporcional ao esquecimento." 
É a pressa que conduz ao esquecimento. Tudo é efémero, veloz, sem sedimentação nem reflexão ponderada e dos anseios tecnológicos não conseguimos retirar felicidade, mesmo quando atingimos o êxtase. Já não sabemos flanar, não vivemos os silêncios, apenas procuramos os ruídos, as metas e esquecemos de usufruir dos percursos. 
Tenho vários propósitos para o novo ano, que sei de antemão não concretizar todos nem nenhum na totalidade. A leitura pelo prazer de estar a ler, a música e apenas ela e amar sem tempo nem modo. Com os pés no chão não deixar que a distância no coração aumente, nem deixar que as trezentas e sessenta e cinco noites sejam de separação. O rio apenas é efémero quando se deixa escoar. 
@Maça de junho







quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Caminhos

O caminho será longo, tortuoso
Tudo o que o impeça de se abrir ao viajante, tornar-se-à numa vitória
Desistir é sempre mais fácil, o menos doloroso, talvez,
Não deixes que o medo de perder te prendam os movimentos,
até as aparências mais fracas guardam forças por explicar.
Podem morrer sonhos, promessas
mas ao longo do percurso outros nascem ou renascem
porque vivos em cada pedra, em cada grão de esperança..
Calça o teu melhor calçado e avança
protege os membros e protege-te a ti
com o coração aberto
renasce em horas ainda esperadas
nas janelas ainda fechadas à espera do sol que virá
de dentro, da ternura que sustenta a alma, da qual és apenas o passageiro.
Faz desse caminho a viagem mais bonita, para um dia recordares com saudade
a plenitude da vida que o caminho te trouxe até à eternidade do tempo,
passando pontes e cruzando veredas, ligando estações e abrindo linhas de mistério.
Olha para além do horizonte e sacia-te nas fontes da inspiração
bebe da água límpida da poesia e sacia os olhos nas cores que deixas pela berma
E quando chegares e te reconheceres na lucidez da loucura que resta
à roda dos teus passos colhes os sonhos tresmalhados entre os dedos.
Na distância do caminho tu és o infinito.

@Maça de junho




terça-feira, 24 de dezembro de 2013

"Natal. Eis que uma paz, que ao certo é doutra vida,
Abranda toda a terra empedernida,
E é cada mesa em festa uma igrejinha acesa...
Abre hoje o coração - portal que se franqueia.
São todos teus irmãos: até os da cadeia,
As que andam na má sina e os que não têm ceia"... (José Régio)

Votos de Feliz Natal para todos quanto visitam o blogue e de alguma forma procuram estas páginas
Desejo que tenham uma noite doce e um coração repleto de alegria para partilhar e para no ano de 2014 transformar em felicidade !

All my friends,  MERRY CHRISTMAS..

its Christmas.
Let's Change Our World.Let's Change Our Words....Give Hope.
@Maça de junho

sábado, 21 de dezembro de 2013

Natal

Desafio nº57 publicado no blogue histórias em 77 palavras


Escrever um texto em 77 palavras, com palavras que comecem pela letra G, e entre cada palavra com G, existam apenas uma ou duas palavras livres. O meu ficou assim:

Gatafunhava umas garatujas no papel grosso que o garoto rasgou. Uma gentileza que facilmente germina entre generosidade e afetos. Gesto de Natal glorioso! Graças e louvores. Grande receita, excelente guião para a gula que se gera! E para gravitar à mesa, ganso, a receita gostosa do Google… nem grasnou! Guarnecido com castanhas, gelado de groselha e ginjas no licor, genial! Os reis, guiados pela gentil estrela brilhante, gritavam alegrias. Na gruta em Belém, glorificaram Deus-menino na galeria.
@Maça de junho


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Nudez

Sei que devo ficar quieta. E fico. Mas quieta não é a minha natureza. Prendam-me os braços, amordacem -me se quiserem. Ficarei calada, imóvel, estática, mas a minha cabeça não conseguirão prender. O meu pensamento não mo conseguirão arrestar, é apenas meu e livre, e sendo livre, leva-me até onde eu quero. Ah! E se eu quero...mas tudo o que eu quero, não encontro, porque és tu quem o guarda. És tu quem melhor o guarda. Porque sabes que apenas assim aprisionado se encontra a salvo. E ambos queremos que seja desta forma. Não escolhemos, mas foi assim que decidimos. E a tomar decisões somos razoáveis. Somos os responsáveis das nossas decisões e vivemos sob as consequências que delas resultam. Para viver é preciso saber dar de comer à dor. E dor não nos falta, mas é também ela que nos dá força e coragem, para sorrir ao acordar.
Hoje li uma frase que resume na perfeição o nosso estado. Pessoa deve ter escrito a pensar em nós, certamente. 
«Eu gosto tanto de ti que tenho vergonha de mim. Há todas as razões boas para eu não gostar de ti, menos a de eu não gostar, porque gosto. É fantástico a gente sentir o que não quer e ter um coração independente.» Fernando Pessoa.
@Maça de junho

domingo, 15 de dezembro de 2013

Doce de tangerina

Já tinha feito doce de laranja e desta vez lembrei-me de fazer com tangerina. Como não tenho muita paciência para procurar, e como sou bastante desorganizada com as consequências de não encontrar aquela receita maravilhosa com que tanto gostaria de brilhar, dou asas à imaginação.
E como já a minha avó dizia, ovos com açucar dão sempre uma sobremesa deliciosa.
Neste caso, adapto para a minha sabedoria: fruta cozida em calda de açúcar dá sempre uma boa compota ou marmalade como dizem os ingleses ou uma boa geleia. E aproximando-se a época natalícia, mais uma em que procuro a felicidade nos pequenos mimos, nos encontros de fugida para trocar lembranças, para conviver um cibinho, para desejar apenas boas festas.

Mas voltando às tangerinas fiz conforme a minha intuição dizia que ficaria bem. Descasquei as tangerinas (guardei as cascas e com elas vou tentar fazer uma geleia, que depois divulgarei) e retirei os fios brancos e as pevides. separei os gomos e coloquei num tacho com metade do peso de açúcar, com um pau de canela, uma casca de limão e uma pitada de açúcar baunilhado (menos que uma colher de café).

1,200 kg de tangerinas descascadas
600 gr de açúcar
1 casca de  limão
1 pau de canela
uma pitada de açúcar baunilhado




 Levei ao lume brando e quando fervente passei a varinha mágica para triturar os gomos. Voltou ao lume e quando atingiu o ponto de estrada, retirei e coloquei em frascos.

Foi a catarse do dia.

Ficou divino!











Boas Festas e votos de Feliz Natal a todos quantos visitam a minha página
@Maça de junho



O destino decide quem entra na minha vida mas é a atitude que dita quem vai ficar

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Despida

Tenho saudade da tua saudade, da paixão que se apaixonou por mim. Desejos jamais desejados, com que me despias por fim. Fica o amargo dos dias em que te acostumaste que fosse tua, e não preenches a ansiedade das horas nuas. 
Não vês que se esvai e não volta a cor das telas pintadas e amarrotam-se os lençóis estendidos. Voltemos.
@Maça de junho


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Prece

A noite adormece no escuro
E os ramos encostam a ternura ao troco da velha árvore
As sombras serpenteiam por entre folhagem
que pára para olhar a lua, e o vento canta 
para embalar as flores.
Debaixo da folhagem morta
ao abrigo da humidade fria da terra
é o amor que se esconde do calor que o sol não trouxe
Nem na lua encontrou o bilhete escrito
Oh! Céus!
Que tristes são os lugares do mundo
Onde as farpas encontram a agonia
deste inverno gélido e sem frutos amanhecidos.
@Maça de junho



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

No negrume da mágoa

Pelos corredores sombrios
desta noite longa, inerte e sedutora 
desce o negrume da mágoa
contrastante com a brancura das bétulas,
pelo incauto coração.
Perco-me sem me encontrar
e dentro de mim o vazio entorpece
pelo tempo que se esvai
nada acontece
apenas o delírio adormece
se o vento balouçar 
da ternura da neve que cai.
@Maça de junho


domingo, 1 de dezembro de 2013


Dia de alegria, para alergia basta o frio. Os saltos altos e o penteado com as pontas soltas a emoldurar o rosto, uma prova que não a apanham a fazer figura de parva. O divã não é vida. E quem é servil não é livre. Não fora por isso e não alterava a rotina, mas fora alertada. São opções das quais surgem poções de magia. Hoje surge uma história nova e cantam-se os parabéns em 77 palavras.

14 anagramas insólitos e divertidos em 77 palavras


 Desafio nº56 publicado no blogue:  http://77palavras.blogspot.pt/

Foto: Maça de junho


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Lirios

Quanto mais longe mais perto
E sinto frio quando o silêncio
adormece ao meu lado
Não deixes a chama apagar
este sopro de vida
Oferece-me lírios
e o verão não terminará ainda
Nem o perfume das tuas mãos
se evaporará das minhas
anda
vem comigo ao campo
apanhamos lírios
junto da velha cameleira
e deitados no musgo macio
olhamos os pássaros no céu.
E as flores serão as únicas testemunhas
de que caímos de amor,
Elas e as nuvens que passam por cima de nós

@Maça de junho




terça-feira, 26 de novembro de 2013

Liberdade

Há promessas não cumpridas
E muitas vidas esquecidas,
Gente que vive sem luz
Cansada de tanto esperar
A quem foi retirada a alma
Sem lhes dar um despertar!
E todos os dias são noite
mesmo quando lhes mandam calma
Cansados de ficar parados
Encetemos uma revolta.
Tanta promessa vã
Tanto direito roubado
Será por acaso pecado
Rebentar com os grilhões
De gente pior que patrões?
O que é escravidão
apenas conhecer a obrigação?
Sinto-me ludibriada, enganada
E quem são os infiéis 
que atraiçoam a nação?
Quero que me respeitem
O meu trabalho é honesto
Por ele quero a paga
Alguém tome as rédeas 
Compromissos e verdade
Faça deste Portugal
Um país de seriedade
Onde um rosto de criança
Traga esperança no futuro.
Só assim podemos sentir a liberdade
@Maça de junho
Foto:Maça de junho




domingo, 24 de novembro de 2013

Penélope

Há palavras que são curtas, mas são sôfregas. Dizem tudo o que o pensamento retem, o que o corpo deseja, o que a saudade aumenta. Há palavras que nem chegam a ser escritas, ficam no silêncio do pensamento e apenas os sentimentos das almas gemeas as escutam, porque as adivinham, porque também as sentem.
Seriam poesia se os poetas também sentissem a saudade que esmaga e sufoca na garganta, as palavras que o coração ecoa. 
Assim acontece quando a conversa busca todos os sentidos e mesmo na distância são os sentidos que se tocam, que se deixam envolver e seduzir numa dança de dois corpos que se sentem sem se verem. É magia.
E não é assim no amor? Para haver amor tem que haver gente dentro do sentimento, senão é um vazio. Sufoca na distância, incomensurável da espera, da tarde que adormece na noite escura, sozinha mas na companhia do sonho e da loucura de um acordar de novo e de novo viver o encantamento da viagem. E tudo na vida envolve riscos até o amor. E os riscos trazem conhecimento e sofrimento, crescimento e maturidade, sabedoria e vida e tanta felicidade. 
O amor é fodido. É título de romance, mas é a dor de não nos podermos deitar com as palavras nem quando navegamos dentro das palavras que dizemos.
Maus amantes são os que  não sabem despir suavemente uma mulher das palavras e dos temores, são os que amam as borboletas e não conhecem as suas metamorfoses. Porque é o tempo que torna tudo mais suave, que dá os contornos da perseverança e da capacidade de ultrapassar os obstáculos, como o rio na sua viagem entre a nascente e a foz.
Viagem de amor é caminhar de encontro ao outro, mesmo quando ambos levam caminhos diferentes que se cruzam quando se despem para se entregar como se estivessem a escrever um conto. E no tempo em que tecem a teia do fio que os une, desfazem os nós do caminho na espera, e enquanto esperam, fiam novos silêncios que terminam em longos e demorados abraços que levam sorrisos dentro deles. E quando partem vão tristes, a única voz que ouvem é a do vento.
@Maça de junho

Foto:internet



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Instante

Nos braços da noite
adormeci, vazia do dia
em que não te vi. Na rua
não estavas, cá dentro
faltavas, nem carta
de ti, nem encontro
marcado. Procuro por ti
no orvalho molhado.
Encontro a saudade
no amanhecer. Sonhou
nos teus braços e sorriu
acordada. Por ser tua amada
por ser mulher, desejada.
No calor do café, encontrou
a suavidade do teu beijo.
E nesse instante foi feliz.
@Maça de junho


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O limite do infinito


Desafio nº55

palavras que têm obrigatoriamente que integrar o texto:
limite  paciência  tempo  sentença  interrogação  penumbra  humildade  adversidade  ventania

Depois substituir as 10 palavras por antónimos/contrários metafóricos e reescrever o texto mantendo toda a estrutura inicial.

Publicado no blogue: histórias em 77 palavras 

Atingiu o limite da paciência. Sem tempo para a sentença mantinha a interrogação do costume: o que faria na penumbra do umbral, como se ali tivesse sido posta em sossego, naquela irritante pose de diva em sessão fotográfica? Humildade tinha pouca. De nada lhe valia a adversidade com que a confrontavam diariamente no jornal.
A ela que nunca perde o aroma da ventania, não irá perder a oportunidade de chegar a redatora chefe.
 Está escrito nas estrelas.

Atingiu o infinito da irritação. Sem azáfama, para a desconfiança mantinha a tranquilidade do costume: o que faria na claridade do umbral, como se ali tivesse sido posta em bulício, naquela irritante pose de diva em sessão fotográfica? Altivez tinha pouca. De nada lhe valia a contingência com que a confrontavam diariamente no jornal.
A ela que nunca perde o aroma do suspiro, não irá perder a oportunidade de chegar a redatora chefe.

Está escrito nas estrelas.

Foto: Maça de junho

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Havia uma flor!

Hoje Manuel António Pina completaria 70 anos. Repletos de dedicação às letras, à prosa e à poesia. Um jornalista que nasceu poeta. Descobri-o no Jornal de Notícias e depois a poesia e depois ainda o amor que tinha aos seus gatos. Tanta afinidade por um homem que nunca tive o prazer de conhecer pessoalmente. Fui eu quem ficou mais pobre, certamente. 
Em 2006 nascia o meu filho e na visita à feira do livro não resisti em comprar para ele a nova edição do Têpluquê e outras histórias. Depois li-lhe o livro como se de uma história de embalar se tratasse e tratava. Hoje lembrei-me de vir fazer um post sobre um homem que me ajudou a encontrar o meu papel de mãe. Hoje sou a mãe que sou porque na minha vida se cruzou um poeta de nome Manuel António Pina.

Havia uma flor!
Nem eu sabia
onde é que a flor havia
mas tanto fazia.

Talvez houvesse
onde ninguém soubesse
ou fosse uma flor de estar a haver
só na minha imaginação,
ou não fosse uma flor, fosse uma canção.

Nem a flor sabia
que existia.
em qualquer sítio, sem saber, floria.
E se fosse uma canção cantava e não se ouvia.

E isso acontecia
no meu coração.
Não sei se era uma flor se uma melodia,
era qualquer coisa que havia,
e cantava e floria
dentro de mim sem razão.

ia pela rua e ninguém diria.
As pessoas passavam
e eu dizia:
"Bom dia!"
E ninguém suspeitava
o bom dia que fazia
em qualquer sítio
que dentro de mim havia!
Só eu sabia e sorria,
Levando-te pela mão.

Manuel António Pina
O TÊPLUQUÊ e outras histórias
Assirio & Alvim, edição de 2006



Foto: Maça de junho

sábado, 16 de novembro de 2013

Felicidade é ser mãe de um filho feliz

Ser mãe é deixar coisas por fazer para fazer as coisas dos filhos (e dos outros também). Mães têm sempre coisas para contar. E por tudo aquilo que conta, fica ainda tanta coisa por contar. Podemos escrever todos os dias, mas há coisas que não se conseguem escrever, porque apenas se sentem. E escrever emoções é mesmo complicado. Mãe é dar beijinhos até arderem as bochechas, é fazer rir mesmo que a dor de cabeça esteja insuportável, é fazer luta de almofadas até arrancar cabelos, sem um queixume. 
Mas também é para por a pensar, para repreender quando necessário, para lembrar as regras de cidadania e convivência saudável a todas as horas.
Quando uma criança pensa, a filosofia ganha um poeta. As atitudes trazem consequências e no caso infantil, crescimento, que deve ser harmonioso e consequente. A singularidade das crianças encontra-se nas interrogações, no questionar, no perguntar. Depois a aprendizagem está em saber ler, não apenas as palavras, mas o mundo que nos rodeia, o mundo onde a criança se insere.
Pois como escreveu Rousseau: "A criança só deve fazer aquilo que quer; mas deve querer apenas aquilo que vocês querem que ela queira; não deve dar um passo sem que vocês o tenham previsto; não deve abrir a boca sem que vocês saibam o que ela vai dizer. Deixem que o vosso aluno acredite ser sempre ele o mestre, quando, na verdade, são sempre vocês que o são."
@Maça de junho
Foto:internet

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Castanhas

As castanhas atapetavam o souto em toda a sua extensão, um caso de ouriços. Por vezes a soca soltava-se do pé ligeiro, enterrada nas folhas fofas e coloridas que o outono pintara de cores amarelas e ocres. Nas tocas ocas dos castanheiros, cogumelos nascidos do húmus amolecido. Um venenoso, osca, até dava asco. O saco sarapilheiro já cheio, esperando quem o cosa.
Logo as coas, acompanhando o vinho novo vai terminar num caos. Tradições de São Martinho!

Anagrama a s o c 

publicado no blogue: histórias em 77 palavras

Foto:Maça de junho

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Mudam as marés e não mudam as saudades

Quando há laços de ternura
que se arrastam pelo areal em doces lembranças,
E na distância salgam a areia que fica mesmo quando a maré muda
são saudades
Que no novelo dos dias acontecem
E num fio que se estende pelas horas todas
enrola-se ao coração
no aconchego do tempo
Em que nos demos.

@Maça de junho
Foto:internet

domingo, 10 de novembro de 2013

Sou ilha

Sou ilha, 
o barco navega junto à margem
Partimos apenas com os ventos
Quando a noite se fizer madrugada

Porque há madrugadas
que acordam para te beijar.

Não deixes que se dissipe no ar
O calor que me deixaste esta noite.
Na memória ainda vagueiam delírios
da plumagem de uma ave no ninho

Porque nas nuvens adormecem
os sonhos mais lindos que guardo para te entregar.
@Maça de junho




quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Bacalhau

Adoramos pratos de bacalhau. Todos os pratos, de todos os feitios. Apenas uma condição: não pode estar salgado, coisa que é muito frequente em restaurantes.
E nos dias cinzentos surgem muitas formas de os colorir. As árvores ainda não amareleceram completamente, mas os dias que terminam cedo e a chuva que cai lá fora é já sintoma da estação outonal que vivemos em plenitude. As castanhas espreitam já dos ouriços abertos e chamam para uma sobremesa calórica. 
Até um prato simples enche de cor e de sorrisos um rosto que muito embora sereno, revela um olhar triste e sem sentido. A mentira dói mais que mil verdades e  todo o coração que ama sem limite nem imposições, sabe reconhecer, mesmo quando embrulhada em doces sentimentos. Para espairecer e fechar os olhos às amarguras que as nossas opções de vida acarretam, enquanto refugiada na cozinha ( da mãe) e ouvindo Ben Howard que através dos ouvidos consola a alma.
Além disso fim de semana, também é preciso consolar a mãe, cozinhando um prato do seu agrado e que possa sobrar para depois ela aquecer para a sua refeição de segunda feira, quando voltar a ficar sozinha.
E ela adora gratinados, principalmente de bacalhau. Assim foi num fim de semana triste, de fieis e de gente infiel a tudo o que são os princípios da lealdade. Mas um fim de semana de afetos, de mimo no estômago e de algumas picadelas nas mãos e no coração.
O bacalhau eis que ficou assim:

500 gr de bacalhau (3 postas demolhadas e desfiadas)
Batatas fritas em palitos grossos
Molho bechamel (usei do de compra)
Duas cebolas pequenas e dois dentes de alho
Azeite qb
 Queijo para gratinar a gosto 

Para decorar azeitonas ou pedacinhos de pimento vermelho (ambos)

Num tacho refoga-se a cebola e os alhos picados em azeite.  Adiciona-se o bacalhau demolhado e escorrido e deixa-se estufar um pouco. Juntei metade do bechámel e as batatas envolvendo tudo . Deixa-se ficar assim ao lume (muito brando) e tapado uns minutos.  Num tabuleiro que possa ir ao forno deita-se o preparado e por cima o queijo envolvido com o restante bechámel. Foi a gratinar com o forno a 180º até estar douradinho .
Garanto que é muito saboroso e muito rápido . E nós adoramos!

@Maça de junho


O bacalhau

E a música






terça-feira, 5 de novembro de 2013

Confissão

Contigo quero falar apenas de amor
Para ficar em silêncio
Enquanto me embrulho de ti

As palavras serão poemas
vestidas com o meu corpo
@Maçã de junho

foto:internet



domingo, 3 de novembro de 2013

Les amants

Chega amarrotada no silêncio do gesto tímido
A palavra que desvias do lençol
Para destapar os meus ombros nus

Eu leio nos teus lábios
Tudo o que a tua boca não me diz
Nem vem escrito na resposta que tarda

Depois do sol vem a noite
É escuro lá fora e no céu brilham as estrelas
Cá dentro o sorriso mantém-se à espera

Vestido de ternura, sem pressa
Dos dias em que entre nós acontece
Despir-nos de nós para sermos um.

@ Maçã de junho









sábado, 2 de novembro de 2013

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A moleira

O peso da maquia castiga o corpo dorido, quando na ousadia do tempo acorda a madrugada revelada ao ouvido da noite, sem regras nem preconceitos. Leva a jumenta airosa pela rédea enquanto tece palavras vãs. Na fonte das bicas matam a sede de água. Nesse mar de confidências e desenganos termina uma etapa de vida por vezes salgada de lágrimas, outras, um susto de gratidão. A velhice adormece depois da encruzilhada no caminho que termina.
Era moleira…

Desafio nº 54 – pares de palavras com sentido contrário

publicado no blogue: http://www.77palavras.blogspot.pt/

foto:internet

Prazer

Em todas as letras meu corpo gemeu
Como em todas as noites em que te pertenceu
E da madrugada fria e nua saíram labaredas de paixão
do abismo cairam flores na tua mão
Sou tão tua como em todas as horas
em que não te encontrei dentro delas
Quando me ensinaste o prazer apenas aprendi a felicidade!

Há tanta suavidade nos gestos que não fazemos
E tanta caricia nas palavras que nos dedicamos
amar-te é o absoluto do flanar pelo mundo

Não precisamos mexer os nossos corpos para dentro de nós
Sob a pele ficou impresso a ouro mais fino o ensaio
qual moeda cunhada sem oscilações de valor nem de câmbio

Sempre que o meu corpo se eleva em direcção ao teu
e dentro de nós tudo estremece, são as entranhas que se amam
Para me curar de ti apenas tu o podes fazer
se dentro de mim permaneceres
como dois corpos em movimentos de prazer.
Se foi  nas palavras que a convulsão nasceu
e o orgasmo aconteceu.


Foto:internet



domingo, 27 de outubro de 2013

Hora de inverno

Esta é a noite em que podemos repetir
voltar atrás e começar de novo

O tempo espera por nós
com medo da mudança

Vamos também reeditar
o sonho que é só nosso

Como a corrigir o texto
das imperfeições, sublimando-o.

Maça de junho

Lição de Coisas

A exatidão serena de uma flor
Aconselha-me em vão
A encher de paz e sem amor
O revolto e impreciso coração.

Ó luz tão verdadeira,
Que dás o verde tenro e o branco puro,
Eu dava a vida inteira
Para ser monte ou muro!

Mas ao homem não valem
Desejos minerais:
Aves, flores, que se calem!
Hei-de ser como os mais.

Nem florido no orvalho como a rosa,
Nem azul como o monte arredondado.
Ó imaginação, só tu és dolorosa!
O maior mal ainda é o imaginado.

Vitorino Nemésio, Nem Toda a Noite a Vida, Lisboa, Ática, 1953


Maça de junho

sábado, 26 de outubro de 2013

Verdade

O que é a verdade?
A verdade que eu confiro ao que me dizes
não é aquela que tu me segredas;
E será que importa?
Tem dias...
O que tu me dizes
ou o que eu penso
são ambas verdades
as nossas.
E porque são de nós
são a verdade que o mundo desconhece
melhor assim!
O silêncio apenas confessa
quando os nossos olhos se abraçam.

Foto:internet


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Viagem no tempo

A simplicidade da minha vida é a origem do meu bem estar, da minha quase permanente felicidade. Desde a infância fui habituada a dar valor às pequenas coisas. Uma couve, um fruto, uma erva, um dia de sol e um dia de chuva. As estrelas à noite e o sol quando nasce. 
Em minha casa não havia tapetes persas, nem candeeiros de lustre, nem havia candeeiros. Havia trabalho e pão e sopa na mesa. Todos trabalhavam no campo ou a ajudar a família, depois das obrigações escolares. E havia bacalhau e carne e frango assado e ovos estrelados e queijo e manteiga no pão, às refeições. 
Mas não havia birras, nem mimos de gosto e detesto.
Em criança e já adolescente não gostava de sopa de cebola, mas comia-a sem qualquer reparo. Se o fizesse teria que a repetir. Agora é uma das minhas sopas preferidas.

Tudo o que trazemos da infância acrescenta-nos e se trouxermos valores, estes ainda nos acrescentam mais alegria.
Fazia piqueniques com os amigos quando saíamos sem destino serra acima à procura de pochegas. Eram piqueniques de maças e pão. Outras vezes nozes e figos secos, outras ainda de azeitonas e broa de milho. Outras era com o que se apanhava pelo caminho. Os caminhos tinham nome, o caminho da fonte, o caminho do souto, o caminho das serôdias, ou o caminho da escola.
Havia os piqueniques (as merendas e os almoços) das tarefas agrícolas, em que se faziam as refeições na leira. Semear batatas, a vindima,  as ceifas dos cereais, as regas. 
Guardo com ternura as memórias destes momentos. Continuo no culto dos afetos, do convivio, a toalha estendida, da merenda na sombra, do lanche na praia, qualquer coisa para petiscar. Continuo na mesma senda. Um café e umas bolachas. Um chá e uma compota a barrar as tostas, enfim, mais uma vez os afetos embrulhados num mimo.
Nessa casa também havia livros e jornais. Os jornais por vezes tinham semanas, mas liam-se na mesma. O importante era conhecer o mundo e abraçar o infinito e não as noticias em si.
As crianças liam em voz alta para os adultos, ao serão. E nas tardes frias do inverno, liam enquanto as mulheres faziam malha, meias para os seus homens e camisolas para as crianças.
E ler era sonhar, com os dias do futuro, com uma lua cheia de ternura e os dias eram leves como o vento da primavera, e a vida fluía como se esperasse o barco do amor. 
Agora o barco chegou ao cais e apenas se vê um fio do horizonte, obrigando o viajante a pernoitar no bosque da saudade e  guardar segredo de tudo o que não foi dito. E do tormento da noite retira o rumo de um olhar que ficou inundado de gotas salgadas e quentes. Por fim caiu, gemeu e adormeceu na margem do amanhecer.

Foto:internet



domingo, 20 de outubro de 2013

Para ti,

Os momentos inesquecíveis
são a dádiva
da chuva e do sol
para o arco íris
e depois entre as nuvens
fica a saudade

Foto:Maçadejunho