segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Mistérios de boticário

A temperatura estava muito próxima. Os sentidos, aturdidos tomavam especiais medicamentos. Pós, olfatos, sorrisos. Até tratando, esbaforidas mezinhas punham olhos saudáveis. Alcatrão tirava emplastros mornos. Paravam os sonhos. Alimento temporal e muito preparado: orgânico seco.
África trocava espinhos mortíferos por orgulho secular. Animais transgénicos estranhos moviam-se para outras savanas. Aceitando ter escolas mais populosas. Ouviam saboreando a tradição. Enquanto morriam prometiam olímpicas soluções.
Além Tejo era mistério para outros sabonetes. Artesanais tinham enxofre. Misteriosos, partilhavam óleos santos.

Uma história em 77 palavras, apenas usando palavras começadas por:
A T E M P O S
a utilização no texto exatamente pela ordem indicada
 
 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

III Domingo da quaresma

Mesa da Palavra: CHAMA QUE CHAMA E AMA

1. No programa de «preparação» para a Noite Pascal Baptismal, início e meta da vida cristã, o Domingo III da Quaresma está marcado pelos primeiros «escrutínios» para os catecúmenos: primeira «chamada» para a Liberdade.
 2. No Evangelho deste Domingo III da Quaresma (Lucas 13,1-9), Jesus atira tudo contra o nosso coração dormente e empedernido: atira a crónica e a parábola. Tudo serve para gravar em nós a conversão. A crónica refere a brutalidade de Pilatos que massacrou um grupo de Galileus e a queda da torre de Siloé que matou 18 pessoas. Pois bem, Jesus não se insurge contra o poder romano nem invoca o fatalismo, mas também não desperta sentimentalismos fáceis e de ocasião, nem tão-pouco se refugia em esquemas feitos: eram pecadores e por isso foram castigados por Deus. O que equivale a dizer também: não é o nosso caso, Deus está do nosso lado, podemos continuar a viver tranquilos. Jesus ouve e passa diante dos olhos a crónica. Mas não fica a olhar para trás, a lamentar-se ou a levantar falsas culpabilizações. Jesus não é reativo, mas proativo. Vira a inteira crónica para nós e diz que, face à precariedade da vida, só nos resta converter-nos! Lição oportuna para nós, que perdemos ainda muito tempo a comentar as notícias, sempre trágicas, dos jornais. De forma diferente, da crónica Jesus retira sabiamente, não o pecado dos outros, mas a conversão para nós, grande tema quaresmal, que nos acompanha desde Quarta-Feira de Cinzas.
 3. Depois pega na parábola da figueira, talvez com muitas folhas, mas sem figos. E põe em cena aquele belo acerto de contas entre o dono do pomar (o Pai) e o cultivador (Jesus, o Filho). Os «três anos» apontam para o ministério de Jesus. Aqueles «três anos» de cuidados parece que não foram suficientes para levar aquela figueira, que somos nós, a dar frutos. É-nos dado «ainda mais um ano» de graça para frutificar. Não, não é a paciência de Deus que a parábola acentua, mas a urgência da nossa conversão. A parábola constitui, portanto, um fortíssimo apelo à conversão. Mas devemos ainda fixar o coração nesta impressionante maravilha que é sermos comparados por Jesus a uma árvore boa plantada por Deus no mundo, neste mundo, para dar bom fruto!
 4. Extraordinária a história de Moisés (Êxodo 3,1-8 e 13-15). Segundo êxodo 7,6 e Atos 7,30, o episódio que hoje temos a graça de ouvir situa-se aos 80 anos da vida de Moisés. Foi então que Moisés foi encontrado por Deus no deserto e foi incumbido de libertar os seus irmãos oprimidos ou escravizados ou instalados, ou oprimidos ou escravizados, porque instalados, no Egito, e de os conduzir, através do deserto, até à entrada da Terra Prometida. No referido episódio, Moisés é pastor e tem um caminho a seguir: o caminho das suas ovelhas. Mas vê uma Visão grande e nova: uma sarça que arde, mas não se consome. E diz o texto, na sua versão original, que Moisés se «desviou do caminho» para ver melhor aquela visão grande. O caminho de Moisés era o caminho das ovelhas que pastoreava. Ao desviar-se do caminho, Moisés age como uma criança curiosa e deslumbrada! Mas as crianças são louvadas no Evangelho, e todos somos advertidos que, se não nos tornarmos como as crianças, não entraremos no Reino de Deus (Marcos 10,14-15). E Deus, que habitava naquela «chama que chama», contou-se a Moisés: 1) Eu BEM VI o sofrimento do meu povo; 2) e OUVI os seus clamores; 3) CONHEÇO a situação; 4) DESCI a fim de o libertar e conduzir para a terra da liberdade. Está aqui, nestes quatro VERBOS, a história de Deus, a santidade de Deus, que SAI DE SI para vir ao nosso encontro. Note-se bem que contando-se nestes verbos, Deus se afasta dos ídolos, que a Escritura Santa diz que não vêem, nem ouvem… E um pouco depois, ao dizer o seu NOME, Deus diz-se outra vez, não com um nome estático, mas com um verbo na forma activa: «Eu Sou». Outra vez diferente dos ídolos inúteis, vazios e inactivos.
 5. É importante não deixarmos para trás, no esquecimento, um versículo que a lição de hoje de Êxodo 3 omitiu: o versículo 10. Aí, Deus diz a Moisés: «E agora VAI; Eu te envio ao Faraó, e FAZ SAIR do Egipto o meu povo, os filhos de Israel». Ficamos então a saber que Deus, que está bem atento a todos as situações difíceis dos seus filhos, nunca responde alguma coisa… Deus nunca responde alguma coisa. Deus responde sempre ALGUÉM! Aqui, nesta situação de opressão do seu povo no Egipto, a resposta de Deus é Moisés. E hoje, quem é hoje a resposta de Deus para as situações difíceis do mundo hoje? Sem equívocos: a resposta de Deus hoje somos nós!
 6. A reflexão que Paulo nos oferece neste Domingo III da Quaresma (1 Coríntios 10,1-6.10-12) é exemplar e encaixa perfeitamente com o Evangelho. No deserto, o Povo conduzido por Deus e por Moisés foi rodeado de tantas provas de carinho e da presença amorosa de Deus. Todavia, pecaram, entorpeceram os corações, puseram em causa a presença de Deus… Conclusão: caíram mortos no deserto! E Paulo escreve, por duas vezes neste texto, para nossa advertência: «Estas coisas aconteceram para nos servir de exemplo» (1 Coríntios 10,6 e 11), acrescentando logo: «E foram escritas para nossa instrução» (1 Coríntios 10,11).
 7. O Salmo 103 é um grande canto ao amor de Deus, que dia-a-dia nos perdoa, nos cura, cuida de nós com carinho e misericórdia maternais. Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas do Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.
Temos meia Quaresma já andada.
E enquanto,
No caminho ou no campo,
Nos alegramos por ver a tua messe amadurar,
Também olhamos e vemos,
Cada vez com mais encanto,
Aquela árvore seca
A olhar para nós e a sangrar.
 
Árvore seca e comovida,
Toco seco a rebentar em flor,
É a tua Cruz, Senhor,
A irrigar de amor a nossa vida.
 
Ela lá está,
Sempre à nossa frente,
Plantada no chão árido e seco.
 
Mas, para nosso maior espanto e admiração,
Eis que a tua Cruz, Senhor, se levanta do chão,
E se planta no nosso coração.
 
Por tanto amor, Senhor,
Recebe a nossa gratidão,
Enche os nossos pés de prontidão,
As nossas mãos de paz,
Os nossos lábios de oração,
Os nossos gestos de perdão.
 
E caminha connosco
No que falta cumprir desta peregrinação.
Não fiques estéril. Não sejas como a figueira da parábola.
Vai em busca do que acreditas, daquilo que te faz ser feliz. Acredita em ti, primeiro, e vê, sente como é fácil amar.
Amar é dedicar atenção, cuidado, respeito e uma sabedoria que a experiência dos erros e do perdão constrói. Não se trata, pois, de um qualquer acaso, coincidência ou destino pré-escrito
 
 
 
 
 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Aqui despi meu vestido de exílio
E sacudi de meus passos a poeira do desencontro
Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra Poética III


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A poesia de Torga

Coimbra, 21 de Fevereiro de 1983
ADÁGIO
Tão curta a vida e tão comprido o tempo!......
Feliz quem o não sente.
Quem respira tão fundo
O ar do mundo,
Que vive em cada instante eternamente.


Miguel Torga - Diário XIV



 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Bom domingo


Por D. António Couto, Bispo de Lamego, da sua página: Mesa de palavras

A Quaresma é esta estrada de Luz e de Jesus.
A quaresma é uma estrada
Entrecortada
Por estações de serviço de paz e de perdão,
Uma avenida
Florida
De oração,
Uma praça
De graça
E contemplação.

A quaresma é uma escada,
Que do céu desce,
Trazendo até nós a mão de Deus,
E ao céu se eleva,
Levando até Deus a nossa prece.

A quaresma é um caminho
Direitinho
Ao coração.
É preciso limpá-lo
De todo o lixo ali acumulado.
É preciso entregá-lo a Deus,
Limpo e cultivado.

Senhor desta estrada deserta,
Que vai de Jerusalém a Gaza,
Conduz os meus passos
Até ao limiar da tua casa.

António Couto

 
Vai e procura o teu caminho. Se é este o caminho que procuras, deixa-te ficar apenas. Por vezes partir não é voltar ao caminho. Por vezes o caminho está em nós. Em mi ou em ti. Só é preciso encontrá-lo. @maça de junho

 

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Viagem

Viagem é um modo
de chegar ao teu encontro
Na linha que percorre o mundo
Sonhar e respirar de novo a vida.
Agora que já me acordaste
(com o teu apito estridente e longo)
E eu senti o brilho da esperança
(como um guarda na passagem de nível)
Não deixes que morra esta luz
O encanto dos dias não termina assim
Quero programar uma nova viagem
Para abraçar os trilhos
Que me levam ao encontro de mim.
 
 
Desafio Escritiva5: Um txto em 77 palavras sobre:
deixe-se inspirar pela imagem 
desta linha de comboio 
e dê asas à sua “emoginação” (emoção + imaginação).
 
 

Happy day my child

Passaram dez anos. Mas foi ontem. Não. Foi hoje, agora mesmo há pouquinho. No abraço eras o mesmo bebezinho, de então. Só que agora és um bebé (zão) grande. Antes cheiravas a dodot's e ao leite da mustela, agora cheiras a lápis da escola e nas mãos já pintas corações e bonecos dos spongebob. Antes apenas vias o canal panda e a disney, agora é o Nickelodeon e o youtube. Antes as nossas conversas eram simples e as minhas respostas raramente eram contrariadas. Agora já és tu que...m me vem falar do que acontece na Síria e com as crianças refugiadas, dos crimes ambientais e dos acidentes climatéricos. Já não queres manifestações de afeto em público e protestas quando quero deixar-te dentro da escola. Só no portão. Depois avanças sozinho, mochila carregada, nas costas, segura apenas por uma alça. Sinal de autonomia e segurança.
Estás a crescer muito depressa. E parece que vais continuar a crescer depressa e dispensar o meu colo
Vai chegar o dia em que em vez de ir ver se já dormes, vou ficar a aguardar para que chegues a casa. Que dirás coisas tão maduras que o meu coração ficará apertadinho.
Vai chegar o dia em que vou morrer de saudade de te ver a crescer. Por isso, vivo o agora. E tenho vivido cada momento, como se fosse único e irrepetível. Vou continuar a estimular-te a cultivares as tuas amizades. Vou continuar a fazer bolos, com coco ou chocolate, ou limão, ou sem glúten para ti a para os teus amigos, que também vejo crescer muito depressa. Vou continuar a jogar contigo o jogo das almofadas e o das adivinhas de palavras e da batalha naval, e xadrez ou do cálculo matemático. Vou continuar a tentar carregar-te no colo. Vou querer que saibas o quanto te amo. Vou querer continuar a passar o máximo de tempo juntos. Assim quando decidires partir para os teus próprios vôos, terás tudo isto guardado no coração.

ag




 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Umberto Eco - O pêndulo quebrou

5 de Janeiro de 1932, nascia Umberto Eco. Professor, filósofo, semiólogo, linguista, foi como escritor que mais se destacou a nível mundial.
Terminou hoje os seus dias, em Milão. Era um apaixonado por códigos secretos e por conspirações. Dizia que os romances eram a sua própria biografia.
@maça de junho

Nem todas as verdades são para todos os ouvidos. Nem todas as mentiras podem ser suportadas. (Umberto Eco)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A sonhar também se engana

Dois caminhos bifurcavam e a escolha não era fácil. Um parecia mais escuro mas menos labiríntico. Seguir um revelava-se difícil. Olhou para trás e ninguém. Então os outros? Será que se perderam… hum! Esperar, seria dar tempo à classificação, e não sabia quantos estavam à frente. Mas escolher o errado, também não era solução. Na montanha qualquer passo errado é um engano caro. Começou a sentir-se sufocado. Tudo parecia um sonho. Fora um engano? Respirou fundo! Acordou.
 
RS 33 - uma história em 77 palavras sobre um engano
 
Três cantos - Eu vi este povo a lutar
 
 O Douro na sua beleza ímpar

Os recantos do Porto

 O encanto do inverno
 A beleza na simplicidade feminina
 
Boa semana
@macadejunho
 
 
 

As minhas sapatilhas

Hoje é dia de homenagear as minhas primeiras All Star. Nos anos oitenta, quando o país se preparava para aderir a um grupo muito promissor chamado europa, a vida das famílias era difícil. O calçado e as roupas passavam de irmão para irmão, ou de irmão para primo. Nunca tinha tido umas sapatilhas novas. Tinha 15 anos. Fui trabalhar nas vindimas e ganhei o suficiente para as minhas verdadeiras sapatilhas. Foi sensacional. Duraram vários anos. Saudade delas!

História em 77 palavras - Escritiva4 - Homenagem às sapatilhas
publicada em:
 
A adolescência é sempre um tempo de sonho, de expectativa, de mudança, de vontade de provar aos outros e a nós. São as sapatilhas preferidas, ainda hoje dos adolescentes. Vejos as meninas do meu grupo das quartas feiras que chegam com as suas sapatilhas branquinhas. Vaidosas na sua pele de bonecas em crescimento e sabendo a admiração que prendem nos rapazes. Também já fui assim. Por isso, talvez, as compreenda tão bem, e por vezes precisando traze-las à realidade, vou-me rindo por dentro, admirando aquela vontade de ser, de parecer.
@macadejunho
 
 
A delicadeza das flores para quem me visita
 


 
 
 

 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Orçamento de Estado

Nada mais havia a fazer. O orçamento fora aprovado. Mais impostos indiretos, mais tentativas de agradar as várias tendências políticas.
Se tivesse evitado a manutenção da TSU para salários mais baixos poderíamos dizer que se tratava de uma política honesta.
Agora restava executá-lo. Tarefa que não se apresentava de todo fácil, pois, a manter-se a austeridade global, é só esperar pelos retificativos.
Mas isto é crítica social ou análise política? Não. Apenas um exercício de escrita criativa.
 
 
Uma história em 77 palavras com três frases impostas
Desafio nº103 publicado no blogue  www.77palavras.blogspot.com
 
 
A Margarida (sempre uma querida) selecionou a minha história (Uau!!!!!)
Vai passar na Rádio Sim no dia 03 de Março pelas 17:45 horas:
 
 


domingo, 7 de fevereiro de 2016

Charles Dickens

"A verdadeira diferença entre a construção e a criação é esta: uma coisa construída só pode ser amada depois de construída, mas uma coisa criada ama-se mesmo antes de existir."


“Há grandes homens que fazem todos os demais sentirem-se pequenos. Mas a verdadeira grandeza consiste em fazer com que todos se sintam grandes.”                                  

 Charles Dickens (7 de fevereiro de 1812 - 9 de junho de 1870)


sábado, 6 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

No espaço do cidadão, o cidadão manifesta-se

Espaço do Cidadão, 11 horas da manhã. Um grupo de pessoas à porta a fumar. Lá dentro uma barulheira infernal. Na entrada um dispensador de senhas. Amarelas para assuntos de habitação social, verde para tratar o e-fatura, azul para as questões municipais, laranja sobre os assuntos de segurança social. Tirou uma de cada e assim tratava de tudo. De imediato reparou que a menos demorada era a verde (47 minutos de espera). Procurou uma cadeira para se sentar, mas estavam todas ocupadas. Encostou-se à parede num lugar próximo da entrada. Pegou no iphone, colocou os fones e abriu o youtube para curtir a música.
Quando deu por ela a vez da senha azul já passara. Afinal andou depressa. Dirigiu-se ao balcão, mas a funcionária secamente, respondeu-lhe que só havia três senhas de tolerância, como já chamara a quarta, teria que tirar outra. Era o que faltava, outra. Não faz mal, trato na amarela, deve dar no mesmo, responde virando as costas e quase derrubando uma senhora que passava, apoiada numa bengala.
Dez minutos depois é chamado para o balcão da segurança social. Não, não pode pedir isenção. Já beneficiou por duas vezes. E o valor em dívida tem que ser pago. Pode pedir o pagamento em prestações. Para reclamar do valor, terá que apresentar certidão comprovativa do seu cadastro fiscal.
Dá um salto na cadeira. - Cadastro de quê?! Bossê tá tola ou quê?! (responde para a senhora que o atende)
- Cadastro fiscal, que terá que pedir nas finanças.
- Bamos a ber, - responde enquanto se levanta para se dirigir ao balcão da habitação social.
Coloca a papelada no balcão e encosta-se na cadeira. O empregado analisa papel por papel. Levanta os olhos e pergunta-lhe: E a declaração de IRS?
- IRS? Nunca meti, sou isento.
- A declaração de rendimentos é obrigatória, não posso receber o seu pedido.
- Mas parece que não compreende. Eu quero uma casa da câmara, ou quer que morar p’rá rua?!
- Entrega o processo quando tiver os documentos todos reunidos.
Enquanto espera ser chamado para o atendimento do e-fatura telefona ao amigo Toni.
- Tás bom pá? Tou aqui a tratar da cena da segurança social e da requisição de casa, mas os gajos tão mal dispostos e encrabam tudo. Oh! pá, espera aí por mim, que já não demoro. Só tou à espera p’ra ber as faturas.
Finalmente é atendido no serviço que parecia o menos demorado. Antes ainda de se sentar avisa a funcionária que o atende: - espero que me resolva isto, porque senão vai ver o que é um gajo mal disposto. Tenho várias questões.
Puxa de um papel do bolso e começa: - As faturas do passe do meu filho dão para as despesas de educação?
A funcionária pega num prospecto e entrega-lhe dizendo: - aqui tem a informação do que pode ser considerado como despesa para efeitos de IRS;
Mas o utente, não se dando por convencido, insiste: - mas dão ou não? É que se não dão bai haber problemas.
Olha para o papel e continua: - E as despesas gerais e familiares dão 250,00 euros para mim e outros 250,00 para a minha companheira?
- Sim. Se tiverem no e-fatura despesas suficientes poderão usufruir desse benefício no IRS. Mas tem aí a senha do portal, para lhe ajudar a ver se tem as faturas validadas?
- Senha? que senha? não são bocês aqui que tratam disso? Eu não tenho senha, sou isento. E não meto IRS. Mas ontem deu no telejornal que se as minhas faturas e da mulher forem inseridas até ao dia 15, podemos receber mais 250 euros cada um. E é isso que aqui estou a fazer. Bocê só pode estar a brincar.
- Não. O benefício é apenas para quem tiver declaração de IRS com imposto a pagar, ou com retenções na fonte em excesso para ter direito a maior reembolso.
Oh! menina, bem se bê que aqui não sabem o que fazem. Fique a saber que deu nas telebisões todas que vamos receber do e-fatura, qual declaração qual carapuça. Cambada de incompetentes é o que é. Se tivessem que andar cá fora, mas não... estão sentadinhos ali o dia todo. Vou às finanças, se lá não resolverem peço o livro de reclamações . E retirem os cartazes que têm aqui colados: “Administração aberta + Simples + Próxima - AMA é uma peça chave na estratégia do Governo para a modernização e simplificação administrativa.” Pegar o fogo a isto, era pouco, cambada...
@ag
 
 
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"Sabes, meu irmão, que em Anatôt,
Há uma amendoeira em flor carregada de esperança.
Sim, em Anatôt, de Anatôt, a amendoeira levanta-se
...
E planta-se no teu coração róseo-branco de criança.
Sim, em Anatôt, Foz Coa, Kilimanjaro, Lamego,
Aí mesmo no chão do teu coração,
Tanto faz, minha irmã, meu irmão.
Sai dessa reclusão
E vem expor-te
A este vendaval manso de graça e de perdão.

A amendoeira em flor é uma toalha branca estendida pelo chão.
Não pela minha mão,
Incapaz de tecer um tal manto de brancura,
Mas pela mão de Deus,
Que também faz brotar o vinho e o pão
E a ternura
No nosso coração"

D. António Couto, Bispo de Lamego